sábado, 2 de agosto de 2008

Chovia ...

Com a cabeça baixa, tentava evitar que as inúmeras gotas d’água entrassem nos seus olhos. Puxava ainda mais para si o casaco, a fim de evitar o frio que aumentava a cada momento. Os carros que passavam próximo banhavam-lhe com aquilo que seria uma mistura de toda a podridão que a cidade tinha produzido e que era tão gentilmente carregado pela correnteza causada pela chuva.

Estava ferrado e não tinha noção deste fato.

Sua primeira atitude antes de continuar qualquer coisa que pretendesse, foi se misturar à multidão e sentir a emoção de estar incógnito invisível aos olhos alheios. Não que isso fosse resolver o problema que ele mesmo tinha arranjado, mas tudo aquilo servia como um paliativo do que estava por vir.

Parou sob a luz de um poste, uma iluminação amarelada exibia-lhe uma feição triste, desconcertante. Sentia-se em um dos filmes do David Lynch, sendo o personagem principal e esperando para a próxima bizarrice que surgiria na sua frente. Cerrou os punhos e os encarou. Uma mancha vermelha desfazia-se com a chuva. O que seria aquilo? Tinha? Vinho? Sangue?

Um carro preto estacionou à sua frente, cegando-o com os faróis altos. Um homem desceu, na verdade, um vulto, pois ele não mostrava indícios sobre o real significado da sua existência. Aproximando-se mansamente, enfiou as mãos nos bolsos e retirou um cigarro e um isqueiro, respectivamente.

O vulto não encontrara dificuldade em acender o cigarro. Parecia que estava sob a proteção de uma pequena camada que impedia que a chuva se chocasse diretamente contra ele.

Dirigindo-se para a figura apática que estava sob o poste, disse:

- Vamos para casa?