Revendo o filme Surplus*, eu lembrei por que não quero ser publicitária.
Exatamente, eu não quero. Eu sou, mas não vai durar muito.
Eu não quero ser publicitária porque eu não quero ser parte dessa merda. Quer dizer, eu sou, inevitavelmente, parte do sistema e sou capitalista e gosto de consumir as coisas, mas eu não quero ser culpada de INCENTIVAR. Não quero criar campanhas que façam as pessoas comprarem coisas de que elas não precisam – e todos sabemos que a esmagadora maioria das pessoas não tem discernimento pra saber do que precisa e do que não precisa.
No filme dizem que o filme publicitário de 30" é a arma mais poderosa que já inventaram na propaganda. E é verdade.
E eu tenho ASCO.
Cada vez que alguém diz "você viu que foda a campanha nova do (insira marca poderosa aqui)?", meu estômago embrulha. Eu confesso que até gosto de algumas, ri que nem criança na campanha do verão da Skol (eu não bebo cerveja), achei que foi uma campanha que pode mostrar o melhor das pessoas, mas... é uma exceção.
Não sou hipócrita, eu também cobiço coisas que não preciso, e compro por impulsos. Mas isso sou EU. Não quero influenciar outros a fazer o mesmo.
Não quero ir em encontros de publicitários de ego inflado e ficar comentando mil campanhas que não vão fazer a menor diferença na minha vida. Não quero competir criatividade – como se folhear anuário do One Show e adaptar uma idéia já feita fosse criativo. Não quero viver pra isso, não quero ser um daqueles babacas de camiseta preta que acham que o mundo gira em torno da sua profissãozinha estúpida e olhar todo mundo por cima – publicitário é cool, é descolado, é informado, sabe falar de tudo? É o cacete! Publicitário é tão limitado quanto o resto do mundo, a diferença é que se limitam ao seu mundinho de filmes e anúncios. Eles falam mal de todo mundo, eles acham que o trabalho dos outros é infinitamente inferior aos seus próprios e adoram quando colega de profissão se ferra.
O que vocês acham que aconteceria se todas as agências sumissem do mapa de uma vez só? Na minha humilde opinião, o mundo ia continuar girando, o gelo polar ia continuar derretendo e ninguém ia nem perceber.
Não compartilho da idéia de dar reset na civilização e voltarmos à idade da pedra, mas saber que o nosso poder de escolha está limitado às marcas que temos no supermercado me dói.
Não vou virar riponga e morar numa chácara e plantar pra comer, mas eu não quero ser publicitária. Não quero estar no topo da cadeia do consumismo desenfreado, não quero ser comparsa das grandes corporações.
Eu quero fazer minhas coisas bonitas e ficar com a consciência tranqüila.
Eu estou nessa, mas me fiz uma promessa e vou cumpri-la até o final. Depois, adeus.
Fiquem aí com os seus leões, que eu fico com o meu amor próprio.
Carolina Garofani