domingo, 4 de outubro de 2009

Manhã

Tinha o sonho de ser diferente.

Todos os dias pela manhã, ao abrir os olhos, questionava-se sobre o motivo de ter tantas raízes presas ao solo. Não conhecia a profundidade das raízes, sabia apenas que estavam lá e sempre haviam estado. Bah, aquelas raízes, raízes chatas, raízes sem graça, raízes desgraças, raízes inefáveis e nefastas que viviam lhe dizendo do que precisava. Viviam filtrando o que vinha do solo, permitindo apenas que chegasse a si o que julgassem necessário.

E quem era apto a dizer-lhe o que era necessário?

Um dia o vento soprou mais forte e, delicadamente, arrancou do chão uma de suas raízes. Tentou concentrar-se na dor, mas não a sentiu. Procurou o sofrimento mas não o encontrou. Nada, nada, não sentia nada de estranho. Dor alguma, pelo contrário: sentia leveza.

Ao invés de lutar contra o vento, como tantas vezes havia feito antes, deixou-se levar por ele mergulhando no quase inaudível barulho, “ploc”, “ploc”, a cada vez que uma de suas raízes se soltava do solo. "Ploc", nenhuma dor, "ploc", nenhum arrependimento, "ploc", nenhuma amargura.

"Ploc". Nada.

De repente viu-se livre, flutuando ao sabor do vento.Como recompensa, este deu-lhe asas e o que era flor virou borboleta.