sábado, 2 de maio de 2009

Dieta da Maçã

Vamos ser honestos: todo o mundo sabe o que fazer para emagrecer. Ou, no mínimo, para não engordar. O problema não é a dieta. Problemáticos são os dias, que são muitos, e que não param de se enfileirar a partir da segunda-feira que elegemos como ponto de partida para a boa forma.

É justamente para que consigamos encarar o dia-a-dia de pratos minguados sem sofrimento que os profissionais da parcimônia à mesa se esforçam, cada vez mais, nos estudos. E, sobretudo, na linguagem.

''Comece o dia com frutas frescas, uma fatia de queijo branco e chá ou café com adoçante.'' A frase é linda. Mas bem poderia ser assim traduzida: o dia vai começar, quer você queira ou não. Já que está gordo, é favor não se entupir de pão e biscoito. Dê-se por satisfeito com uma frutinha e um naco de queijo. Se tiver fome, ainda assim, beba café ou chá. E sem açúcar!

Lanche. ''Prefira uma fruta ou gelatina diet.'' Tradução: não tem muita escolha; é frutinha ou gelatina. E sem açúcar!

Almoço. ''Faça uma gostosa seleta de legumes para acompanhar um filé de peixe grelhado. Antes, um farto prato de salada verde o ajudará a se sentir saciado.'' Tradução: nem pense naquela picanha emoldurada lindamente numa capa de gordura, que você não está podendo. É peixe, folha, e olhe lá!

Jantar. ''Repita o padrão do almoço utilizando as substituições conforme o quadro abaixo.'' Lá vai o sujeito, torcendo pelas tais substituições. Em vão. Sai peixe, entra frango. Sai cenoura, entra vagem. Sai salada, entra... mais salada. Tudo nesse nível.

E assim se sucedem as sutilezas literárias da sua pobre dieta literal. Até que você, já meio embriagado de fome, lê no cardápio de domingo a palavrinha mágica: ''sobremesa''. E quase nem acredita.

Engana-se, contudo, se achar que vai poder cair de boca no brigadeiro. Tolinho. A sua ''opção de sobremesa'' (é como eles chamam a falta de opção) será, mais uma vez, a bendita frutinha. Eis uma das piores manias dos profissionais da silhueta: achar que a maçã, por exemplo, merece fazer parte do distinto time de guloseimas chamadas de sobremesa. Não merece; e vou adiante, até por uma questão histórica.

Maçã é maçã. Sobremesa é sobremesa. Sobremesa é qualquer comida doce, feita num momento bem-intencionado e ofertada num gesto meigo, cortês. Uma doce lembrança de viagem. Um bombom romântico. Ah, um suspiro! Ainda que seja uma bomba calórica, portanto, a sobremesa estará liberada por ter bons antecedentes.

Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da maçã. Maçã é aquilo que Adão e Eva comeram - e deu no que deu. Não bastasse, foi a maçã que caiu na cabeça do sujeito que, então, decretou a tal lei da gravidade.

Se você é mulher e tem mais de 20 e poucos anos, sabe bem o que significa isso para a humanidade. A cada puxada de ferro na academia, você lembra que a maçã poderia muito bem ter ficado quietinha no seu galho. A cada onça de cinqüenta que você deixa com aquela amiga sacoleira dos cremes milagrosos, você lembra. A cada decote proibido. A cada luz apagada na hora H.

Sem exagero, se poderia dizer que 90% da indústria cosmética se sustenta porque as maçãs, em geral, não se sustentam. E os outros 10% são para dar uma corzinha às maçãs do rosto - claro, mulher nenhuma consegue ser rosada comendo só alface. Tudo culpa das maçãs, enfim.

Portanto, vamos aceitar os eufemismos e até as metáforas desse pessoal das baixas calorias; afinal, faz parte da profissão deles. Mas não vamos, em hipótese alguma, aceitar que a maçã seja promovida a sobremesa. Já chega esse bando de pudins dietéticos, outra contradição culinária que invadiu as prateleiras, fazendo-se passar por doce e pondo nossos antigos valores em dúvida.

Poxa, se nem mais a sobremesa engorda, vamos acreditar em quê?