Frágil – tenho tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que me protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandar um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escrever: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Me comovo com o que não acontece, sinto frio e medo. Parada atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar. Ando meio fatigada de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis. Exausta de construir e demolir fantasias. Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem, certo? Mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar.
Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheia de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressiva e tal. E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói.
